quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Economia

Receita do governo para 2027 supera R$ 3 trilhões e levanta dúvidas entre economistas

Orçamento de 2027 prevê R$ 3,4 trilhões em receitas, mas especialistas veem projeções otimistas

Otavio Augustopor em
Receita do governo para 2027 supera R$ 3 trilhões e levanta dúvidas entre economistas

O governo federal estima uma receita total de R$ 3,41 trilhões para 2027. A previsão consta no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado ao Congresso Nacional. O valor representa aumento de mais de R$ 200 bilhões em relação à estimativa atual para 2026.

A proposta também prevê R$ 2,85 trilhões em receita líquida no próximo ano. O cálculo considera as transferências de recursos para estados e municípios.

Ao mesmo tempo, o governo fixou as despesas em R$ 2,67 trilhões. Com isso, a proposta estima um saldo positivo de R$ 18,6 bilhões.

Depois das deduções previstas no cálculo da meta fiscal, como parte dos precatórios, o resultado projetado chega a R$ 83,4 bilhões. O valor fica acima do centro da meta, estabelecido em R$ 73,2 bilhões.

Apesar dos números apresentados pelo governo, economistas consultados pelo jornal apontam diferenças entre as projeções oficiais e as estimativas do mercado.

Onde está a diferença nas contas?

Um dos principais pontos de divergência está na expectativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O governo trabalha com uma expansão de 2,5% em 2027.

O mercado, por outro lado, projeta crescimento de 1,6%, segundo o Boletim Focus. Já a Tendências Consultoria trabalha com uma estimativa ainda menor, de 1,2%.

A diferença interfere diretamente na previsão de arrecadação. Em geral, uma economia que cresce mais amplia a base de consumo, produção e renda e, consequentemente, pode aumentar a arrecadação de tributos.

Receita

Para o economista João Leme, da Tendências Consultoria, o cenário projetado pelo governo apresenta uma diferença relevante em relação às expectativas do mercado.

A consultoria estima ainda um déficit primário de R$ 86,9 bilhões em 2027. Após as deduções consideradas nas regras fiscais, o resultado seria de R$ 21,2 bilhões negativos.

Segundo Leme, os sinais de desaceleração da economia já aparecem em indicadores como a criação de empregos formais. Além disso, o cenário fiscal teria pouco espaço para novos estímulos no próximo ano.

Novos tributos entram na conta

Outro ponto levantado pelos especialistas envolve as receitas previstas com a reforma tributária sobre o consumo.

O projeto considera R$ 677,9 bilhões em arrecadação com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto Seletivo (IS) em 2027.

 

 

No entanto, segundo Jeferson Bittencourt, chefe de macroeconomia do ASA, o orçamento também prevê cerca de R$ 20 bilhões em receitas provenientes de leilões de áreas de petróleo. O economista cita resultados abaixo do esperado em 2025 e 2026.

Além disso, ele questiona a inclusão de receitas relacionadas aos novos tributos antes da definição das respectivas alíquotas. A CBS e o Imposto Seletivo ainda dependem da regulamentação dos parâmetros necessários para o cálculo da arrecadação.

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A estimativa considera a relação entre a arrecadação e o PIB registrada entre 2012 e 2021. Nesse período, os tributos utilizados como referência representaram, em média, 5,1% do PIB.

Uma regra anterior proposta pelo governo considerava a média de 2024 e 2025, que resultaria em uma proporção de 4,6% do PIB. A mudança elevou a estimativa em pelo menos 0,4 ponto percentual.

Especialistas projetam resultado diferente

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, também questionou a previsão de crescimento da receita líquida.

Segundo ela, o governo trabalha com uma expansão de aproximadamente 10% da receita líquida em 2027, enquanto a economia apresenta sinais de moderação.

Vitória também avalia que o orçamento não representa uma redução das pressões fiscais. Na análise apresentada, o governo utiliza o aumento da arrecadação para acomodar o crescimento das despesas.

 

 

A projeção oficial de superávit de R$ 18,6 bilhões representa uma melhora em relação ao déficit projetado para 2026. No entanto, a economista considera que o cálculo depende de premissas elevadas para o crescimento econômico e de uma previsão menor para as despesas obrigatórias.

Além disso, Bittencourt afirma que uma alteração enviada pelo governo para incluir a receita do Imposto Seletivo no projeto poderia ter sido usada para modificar também as regras relacionadas ao contingenciamento.

Segundo a avaliação apresentada pelo economista, a mudança poderia ampliar a possibilidade de cumprimento da meta fiscal. Caso fosse considerado apenas o limite inferior da meta, o resultado autorizado poderia chegar a um déficit de R$ 18 bilhões, invertendo o sinal do resultado divulgado na proposta.

Assim, o debate sobre o Orçamento de 2027 deve se concentrar na capacidade de o governo transformar as estimativas de arrecadação em receitas efetivamente realizadas. As diferenças entre as projeções oficiais e as expectativas do mercado também serão analisadas durante a tramitação do projeto no Congresso.

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