sábado, 17 de outubro de 2026
POLÍTICA

Especialistas avaliam que debates no DF precisam de mais propostas e menos ataques

Especialistas avaliam que confronto entre candidatos é importante, mas defendem mais espaço para propostas, perguntas de aprofundamento e discussão sobre a viabilidade dos projetos

Jéssica Nascimentopor em
Especialistas avaliam que debates no DF precisam de mais propostas e menos ataques

Os debates entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal nas eleições de 2026 têm sido marcados por confrontos, acusações e discussões entre os concorrentes. Embora o embate direto seja considerado importante para que o eleitor conheça diferenças entre os postulantes, especialistas ouvidos pelo O Hoje avaliam que o formato precisa encontrar um equilíbrio maior entre confronto e apresentação de propostas.

A avaliação é de que os ataques podem ter função eleitoral quando servem para questionar decisões, governos anteriores e divergências de projetos. O problema aparece quando a disputa pessoal ocupa grande parte do tempo e reduz o espaço para temas como saúde, segurança, educação, mobilidade, orçamento e Fundo Constitucional.

Para os especialistas, uma alternativa é ampliar o uso das sabatinas individuais, como o modelo adotado pela Globo na corrida presidencial, sem necessariamente abandonar os debates tradicionais. A combinação dos dois formatos poderia permitir, ao mesmo tempo, o confronto entre candidaturas e uma avaliação mais aprofundada da capacidade de cada concorrente de apresentar e executar propostas.

Confronto é importante, mas não pode virar ataque pessoal

A advogada especialista em Direito Eleitoral, graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pós-graduanda em Direito Eleitoral pelo IDP Yasmin Melo, avalia que o problema não está necessariamente no formato dos debates. Para ela, o confronto direto é importante para que o eleitor possa comparar os candidatos, mas perde sua função quando é substituído por ataques pessoais.

“Definitivamente o formato não é o problema. Quando os candidatos desviam o foco da discussão, passam um recado à população, o de que ela não é a prioridade”, afirma.

Segundo a especialista, críticas à administração pública, comparação entre governos e exposição de falhas na prestação de serviços fazem parte da liberdade de expressão e podem contribuir para o debate eleitoral. Já acusações que possam configurar calúnia, difamação, injúria ou divulgação de informações sabidamente falsas devem ser tratadas de maneira específica.

Ela também considera que o confronto direto é necessário em uma disputa pelo comando do Executivo.

“Eu acredito que o confronto direto entre os candidatos que pleiteiam o cargo do Executivo é indispensável para que o eleitor possa sopesar e, de fato, comparar o desempenho dos postulantes à gestão do Distrito Federal”, explica.

Na avaliação dela, o debate tradicional poderia ser aprimorado com a divisão dos blocos entre momentos de confronto e discussões temáticas. Um dos mecanismos sugeridos é o sorteio de temas e candidatos, além da possibilidade de penalização de tempo quando um concorrente fugir do assunto proposto.

Sabatinas permitem aprofundar propostas

O pró-reitor da Estácio Brasília e doutor em Direito Constitucional, Murilo Borsio Bataglia, também defende uma combinação dos modelos. Para ele, os debates são importantes porque colocam os candidatos diante dos adversários, mas as sabatinas apresentam uma vantagem quando o objetivo é avaliar a consistência das propostas.

“Os confrontos fazem parte da dinâmica eleitoral e ajudam a explicitar diferenças entre candidaturas, mas, quando ocupam parcela excessiva do debate, podem deslocar a discussão dos problemas públicos para a disputa sobre quem é responsável por eles”, afirma.

Segundo Bataglia, o eleitor precisa ter condições de avaliar não apenas o posicionamento político dos candidatos, mas também a viabilidade das propostas apresentadas. Isso inclui saber quanto uma política pública custará, de onde virão os recursos, quem será responsável pela execução e quais resultados deverão ser alcançados.

Para ele, a sabatina individual pode cumprir justamente essa função.

“Sim, a sabatina individual pode ser mais eficiente para determinados objetivos, especialmente para aprofundar propostas e testar a consistência dos programas de governo, embora não deva necessariamente substituir o debate tradicional”, avalia.

O especialista considera que os dois modelos têm funções distintas. Enquanto o debate permite observar como os candidatos reagem aos adversários e defendem suas escolhas diante de projetos concorrentes, a sabatina cria condições para que um mesmo tema seja explorado por mais tempo.

BRB dominou primeiro debate

O cientista político e professor do Ibmec Brasília, Leandro Gabiati, chama atenção para o primeiro debate, promovido pela Band. O encontro teve perguntas, confronto direto e participação de eleitores, mas a crise envolvendo o BRB e o Banco Master acabou ocupando grande parte da discussão.

Para Gabiati, houve um efeito ambíguo. De um lado, a questão colocou na agenda eleitoral um tema de relevância institucional e fiscal para o Distrito Federal. De outro, fez com que assuntos como saúde, educação e mobilidade tivessem menos espaço.

“O formato de confronto direto cumpre uma função legítima, que é testar a capacidade de reação e consistência argumentativa dos candidatos, mas quando um único tema concentra o debate, o valor informativo para o eleitor sobre o conjunto do programa de governo diminui proporcionalmente”, analisa.

Na avaliação do cientista político, o confronto é produtivo quando permite identificar diferenças reais de diagnóstico, prioridades e soluções. O problema aparece quando a discussão passa a ser dominada por acusações pessoais e repetição de discursos.

“O problema surge quando o confronto se descola do conteúdo e passa a operar por acusação pessoal ou por repetição de bordões, sem que o candidato atacado tenha tempo real de resposta qualificada”, afirma.

Modelo da Globo tem vantagens, mas não resolve tudo

O formato adotado pela Globo nas sabatinas presidenciais também entrou na avaliação dos especialistas. A proposta de entrevistar individualmente os candidatos permite que jornalistas explorem temas específicos e façam perguntas de acompanhamento, sem a dinâmica de confronto simultâneo entre todos os concorrentes.

Para Gabiati, há uma vantagem importante: o modelo impede que uma candidatura seja transformada em alvo coletivo, como ocorreu nos primeiros debates do DF com a governadora Celina Leão.

“O modelo de sabatina, como o da Globo na disputa presidencial, tem uma vantagem estrutural clara: elimina a dinâmica de todos contra um único alvo”, afirma.

Por outro lado, o cientista político ressalta que a sabatina também tem uma limitação: o eleitor perde a possibilidade de observar os candidatos lado a lado, respondendo ao mesmo problema e apresentando soluções diferentes.

Por isso, segundo ele, os formatos devem ser vistos como complementares.

“O ideal, do ponto de vista jornalístico, seria tratar os dois formatos como complementares, e não como substitutos.”

Especialistas defendem modelo híbrido

A solução apontada pelos especialistas passa pela reformulação dos debates tradicionais. Em vez de eliminar o confronto, a proposta é vinculá-lo a temas concretos e exigir respostas mais objetivas dos candidatos.

Bataglia defende blocos temáticos com perguntas que obriguem os concorrentes a apresentar diagnóstico, proposta, custo, fonte de financiamento, prazo e responsável pela execução.

“Um bom debate deveria permitir que o candidato seja confrontado, mas também obrigado a explicar o diagnóstico, a solução proposta, os recursos necessários, os responsáveis pela implementação e os mecanismos de acompanhamento e avaliação”, diz.

Gabiati segue uma linha semelhante. Para ele, um modelo híbrido poderia estabelecer blocos fixos sobre saúde, segurança, educação, mobilidade, BRB, orçamento e Fundo Constitucional. Depois da resposta de cada candidato, o mediador poderia fazer perguntas de aprofundamento, em vez de simplesmente abrir espaço para uma nova rodada de ataques.

A especialista em Direito Eleitoral também propõe manter o confronto, mas com regras que impeçam que os candidatos abandonem completamente o tema sorteado.

O objetivo, segundo os especialistas, é preservar uma característica essencial dos debates eleitorais — o contraditório — sem transformar os encontros em uma sucessão de acusações.

O que o eleitor precisa saber

Mais do que definir qual formato é melhor, os especialistas convergem em um ponto: o debate eleitoral precisa entregar ao eleitor informações que permitam comparar candidaturas.

Questões como “quem é o culpado?” podem fazer parte da disputa, principalmente quando envolvem responsabilidades por decisões de governo. Mas, para além disso, os candidatos precisam responder perguntas como: qual é o problema, qual é a solução, quanto ela vai custar, de onde virá o dinheiro, quem vai executar e como será possível medir o resultado?

Esse tipo de questionamento ganha importância em temas sensíveis para o DF, como o orçamento, o Fundo Constitucional e o BRB, que envolvem limitações institucionais e fiscais que não podem ser resolvidas apenas com promessas de campanha.

Para os especialistas, os debates ainda têm papel relevante na eleição. O desafio é fazer com que o confronto produza informação, e não apenas desgaste. Nesse cenário, a combinação entre debates coletivos e sabatinas individuais pode oferecer ao eleitor tanto a possibilidade de comparar os candidatos quanto a oportunidade de conhecer, com maior profundidade, o conteúdo e a viabilidade de seus projetos.

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