Rebanho menor em Goiás exige atenção às contas das fazendas
Estado registra terceira queda consecutiva no número de bovinos; especialista explica por que recorde no valor da pecuária não significa mais lucro para o produtor
Goiás mantém o terceiro maior rebanho bovino do Brasil, com aproximadamente 22,5 milhões de cabeças, mas registrou queda de 3,2% em 2025. A terceira redução consecutiva reforça a importância de planejar a compra de animais e acompanhar as contas da propriedade. Para o contador e mestre em Gestão de Negócios Paulo Sousa, o resultado depende de quanto custa produzir e do dinheiro disponível para sustentar a atividade.
No Brasil, o rebanho diminuiu 1,7% e chegou a 234,3 milhões de bovinos, o menor número desde 2022. Ao mesmo tempo, o valor da produção da pecuária e da aquicultura alcançou R$ 141,2 bilhões, recorde impulsionado principalmente pelo leite e pelos ovos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os números não significam, porém, que os criadores de gado de corte estejam recebendo mais. Sousa explica que os indicadores medem coisas diferentes. “São duas medidas diferentes. O rebanho conta animais; o valor da produção apurado pelo IBGE soma leite, ovos, mel e aquicultura, e não inclui a venda de gado para abate. O recorde de R$ 141,2 bilhões veio dos ovos e do leite — não é um recorde da carne bovina”, esclarece.
Na avaliação dele, a redução do rebanho goiano exige atenção à reposição, ou seja, à compra ou criação dos animais que vão substituir aqueles vendidos. “Para o pecuarista goiano, isso significa reposição mais cara e margem que depende de custo e de produtividade, e não de volume”, afirma.
Vender mais não significa lucrar mais
Para saber se a fazenda está dando resultado, o produtor precisa olhar além do dinheiro recebido pelas vendas. O lucro só aparece depois que todas as despesas da atividade são descontadas. “Lucro é a receita da própria fazenda menos todos os custos, inclusive juros, depreciação e o trabalho da família. Recomendo três leituras: caixa, resultado e retorno sobre o capital investido em terra, gado e máquinas”, afirma Sousa.
Isso significa acompanhar o dinheiro disponível para pagar as contas, o que sobra depois das despesas e se o ganho compensa os recursos aplicados na propriedade. A depreciação corresponde ao desgaste e à perda de valor de máquinas e equipamentos com o tempo.
O especialista também chama atenção para a venda de matrizes, as fêmeas destinadas à reprodução. Embora a negociação coloque dinheiro na conta, pode diminuir a quantidade de bezerros produzidos nos próximos ciclos. “E um alerta: a venda de matrizes melhora o caixa do ano, mas reduz a produção futura — não é lucro.”
A compra precisa caber no pasto e no orçamento
Antes de ampliar o rebanho, Sousa recomenda observar a disponibilidade de alimento, o desempenho dos animais, a relação entre o preço do boi vendido e o do bezerro comprado e a capacidade de pagar as dívidas. “Ampliar faz sentido quando o lote adicional cabe no pasto e no caixa e dá margem mesmo com preço menor. Reduzir é decisão correta diante de falta de alimento ou de pressão financeira”, explica.
Para definir quanto pode pagar por um animal, o produtor deve partir do valor que espera receber na venda e descontar os gastos previstos durante a criação. “Primeiro, calcular o preço máximo de compra: a receita esperada na venda menos os custos, os juros e a margem pretendida. Segundo, montar o fluxo de caixa de todo o ciclo e escalonar as compras, retendo fêmeas próprias.”
Distribuir as compras ao longo do tempo ajuda a organizar os pagamentos. Mas o planejamento também precisa considerar a possibilidade de o mercado não se comportar como o esperado. “Terceiro, testar o plano com preço de venda menor e custo maior: se o caixa não resiste, o lote deve ser reduzido”, orienta.
Economia que pode sair cara
Alimentação, pastagens, mão de obra e juros estão entre os gastos que precisam ser acompanhados. Para Sousa, o controle começa pelo cálculo do custo de produção de cada lote e de cada arroba, unidade usada na comercialização do gado. “O controle começa por apurar o custo por arroba e por lote, programar a compra de insumos e alongar a dívida. Não se corta sanidade nem suplementação essencial: a economia aparente aumenta o custo por arroba”, afirma.
O alerta é que reduzir cuidados com a saúde e a alimentação pode prejudicar o desenvolvimento dos animais e tornar a produção mais cara. Também é necessário adequar o prazo dos empréstimos ao tempo que o investimento leva para dar retorno. “Matriz e pastagem são investimento de longo prazo e não devem ser financiadas com crédito de custeio”, diz. Esse crédito é destinado às despesas do ciclo produtivo e pode ter um prazo incompatível com investimentos de retorno mais demorado.
Contas da família e da fazenda
Misturar despesas pessoais com as da propriedade é um dos problemas que dificultam a identificação do lucro. O contador também observa falhas no registro dos animais e na organização das dívidas. “Os pontos que observo com mais frequência: contas da família e da fazenda no mesmo caixa; faturamento tratado como lucro; ausência de inventário do rebanho; investimento de longo prazo financiado com dívida curta; e patrimônio, operação e dívidas concentrados na pessoa física do titular.”
Para começar a corrigir esses problemas, ele recomenda medidas que permitam visualizar o funcionamento do negócio. “O começo é simples: conta bancária exclusiva da atividade, retirada mensal definida para a família, inventário do rebanho e das dívidas e fluxo de caixa mensal. A contabilidade deve servir à gestão, e não apenas ao imposto.”
Preparação para o futuro
A organização dos registros também é importante para avaliar os efeitos da Reforma Tributária. Sousa recomenda reunir as informações de receita, manter a emissão de documentos fiscais e simular as alternativas aplicáveis à propriedade.
A escolha entre atuar como pessoa física ou jurídica exige o mesmo cuidado. “A decisão resulta de simulação, e não do tamanho do rebanho”, afirma. “Além do imposto, pesam a separação de riscos, a sucessão e o acesso a crédito.”
No planejamento familiar, o especialista orienta regularizar os documentos dos imóveis, levantar animais e dívidas e estabelecer regras sobre quem administra a fazenda e como a renda será distribuída. “Oriento que o planejamento seja feito antes do evento sucessório, quando ainda há escolha”.
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