Governadores eleitos que apoiaram Flávio se afastam e agora buscam diálogo com Lula
Apoiaram Flávio, mas agora precisam negociar com Lula
A maioria dos governadores eleitos com apoio de Flávio Bolsonaro (PL) se afastou da contestação ao resultado das eleições e passou a defender o diálogo com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento ocorre após a derrota do senador na disputa presidencial e sua saída do Brasil para os Estados Unidos.
Um levantamento realizado pelo jornal O Globo identificou que 13 dos 15 governadores que apoiaram Flávio no segundo turno reconheceram expressamente a vitória de Lula. Além disso, nenhum dos nomes endossou a carta em que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro questiona, sem apresentar provas, o resultado das urnas.
A postura também está relacionada às necessidades administrativas dos estados. Os governadores precisam negociar recursos, obras, investimentos e condições para enfrentar dificuldades fiscais. Por isso, a interlocução com o governo federal permanece entre as prioridades das novas gestões.
Da campanha à negociação: o que mudou entre os aliados de Flávio?
Em São Paulo, o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) tornou públicas suas divergências em relação à reação de Flávio após a derrota. Ex-ministro do governo Bolsonaro e um dos nomes cotados para disputar a Presidência em 2030, Tarcísio defendeu que os aliados respeitem o resultado eleitoral.

Em nota, ele afirmou compreender a indignação do senador e de parte dos eleitores. No entanto, ressaltou que o caminho deve ser o reconhecimento da decisão das urnas.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, declarou.
Em Minas Gerais, o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) terá de negociar com o governo federal em meio à situação fiscal do estado. Durante a campanha, Flávio havia prometido rever as condições da dívida mineira com a União, que supera R$ 180 bilhões, e transformar parte dos pagamentos em investimentos estaduais.

Agora, com a derrota do aliado, Cleitinho precisará tratar do tema diretamente com o Planalto. O orçamento de 2027 prevê déficit de R$ 10,5 bilhões para Minas Gerais. Procurado, o governador eleito não quis comentar. Entretanto, publicou nas redes sociais mensagens sobre a superação de divergências políticas em nome da pacificação do país.
Dívidas e obras colocam o Planalto no centro das negociações
No Rio de Janeiro, o governador eleito Douglas Ruas (PL) também indicou que pretende manter uma relação institucional com o governo federal. Ele recebeu o apoio de Flávio durante a campanha e venceu o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) no primeiro turno.
Ao comentar o resultado presidencial, Ruas afirmou que respeita a escolha da maioria dos eleitores. Além disso, disse que pretende manter uma relação produtiva com o governo federal para garantir recursos destinados a obras e políticas sociais no estado.
No Sul, os governadores eleitos discutem uma agenda conjunta de reivindicações. Entre as prioridades estão a recuperação da Malha Sul, ferrovia utilizada para o escoamento da produção agrícola, a renegociação das dívidas estaduais e a criação de um fundo constitucional para as regiões Sul e Sudeste.
A pauta também inclui a ampliação do crédito para o agronegócio e novos investimentos em infraestrutura.
No Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL) defendeu uma relação de diálogo com o governo federal. Segundo ele, a administração estadual espera reciprocidade nas negociações, especialmente diante das dificuldades fiscais enfrentadas pelo estado.

No Paraná, Sergio Moro adotou posição semelhante. Embora tenha defendido o esclarecimento de questionamentos apresentados pela oposição sobre o processo eleitoral, o governador eleito reconheceu o resultado e afirmou que continuará atuando na oposição ao governo Lula.

Moro declarou que seu foco será a administração estadual. Em relação ao cenário nacional, destacou o crescimento da oposição nas eleições para governos estaduais e nas bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado.
No Distrito Federal, a governadora reeleita Celina Leão (PP) também precisa negociar com a União. Ela busca apoio federal para enfrentar a situação do Banco de Brasília (BRB), que registrou prejuízos após a tentativa frustrada de compra do Banco Master e as suspeitas de fraude financeira relacionadas à operação.
No início do ano, Celina solicitou aval da União para viabilizar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões destinado à capitalização do banco. As tratativas, porém, enfrentaram impasses. Após a reeleição de Lula, a governadora afirmou que manterá o diálogo com o presidente, apesar das diferenças políticas.
Governadores defendem diálogo, mas há exceções
Em Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), que apoiou Flávio, relatou ter tentado telefonar para Lula para parabenizá-lo pela vitória, mas não conseguiu contato. O governador defende a continuidade da parceria com a União para viabilizar projetos de infraestrutura.
Entre as iniciativas citadas estão a Rota Bioceânica e intervenções em rodovias federais. Riedel afirmou que separa as discussões políticas das questões administrativas.
Em Goiás, Daniel Vilela (MDB) foi além do reconhecimento do resultado e cobrou que o governo federal não discrimine estados administrados por adversários políticos. Para ele, a relação entre União e governos estaduais deve preservar os interesses regionais, independentemente das diferenças partidárias.
O governador defendeu que Lula construa uma política de não retaliação aos estados que não integram sua base de apoio. Também mencionou a necessidade de um governo de coalizão e de mudanças na administração federal.

Apesar do movimento da maioria, dois governadores ainda não haviam reconhecido expressamente a vitória de Lula até o momento do levantamento. São eles Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina, e Marcos Rogério (PL), de Rondônia.
Nas redes sociais, Jorginho afirmou que a eleição terminou, mas mencionou a existência de questionamentos que, segundo ele, precisam ser esclarecidos aos eleitores. O governador também defendeu a pacificação e declarou que continuará trabalhando pelos interesses de Santa Catarina, respeitando as instituições e o resultado final das urnas.
Já Marcos Rogério lamentou a derrota de Flávio e a frustração dos eleitores de Rondônia. Entretanto, não declarou expressamente se reconhecia o resultado eleitoral. Procurado pela reportagem, também não comentou.
O levantamento mostra, portanto, que a maior parte dos governadores que apoiaram Flávio Bolsonaro busca separar as divergências políticas das negociações administrativas com o governo federal. A necessidade de obter recursos, renegociar dívidas e viabilizar projetos estaduais aparece entre os fatores que orientam essa aproximação com o Planalto.
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