Banco Central mantém Selic em 13,75% diante de incertezas econômicas
Copom interrompe ciclo de cortes nos juros básicos após cinco reduções consecutivas. Instabilidade cambial, riscos climáticos e expectativas de inflação acima da meta pesaram na decisão
O Banco Central decidiu interromper a sequência de reduções da taxa básica de juros e manteve a Selic em 13,75% ao ano. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom), diante do aumento das incertezas sobre o cenário econômico e da permanência das projeções de inflação acima do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional.
A manutenção contrariou a expectativa predominante no mercado financeiro, que projetava uma redução de 0,25 ponto percentual. Parte das instituições, entretanto, já considerava a possibilidade de continuidade dos juros no mesmo patamar. Em comunicado, o Banco Central afirmou que a conjuntura exige cautela, citando o enfraquecimento mais acentuado da atividade econômica doméstica, a elevação das expectativas inflacionárias e as incertezas sobre as próximas decisões.
O comitê não apresentou indicações sobre o comportamento da Selic nas reuniões seguintes. Entre os fatores que influenciaram a avaliação estão a instabilidade do câmbio, os impactos da guerra no Oriente Médio e os riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño.
Inflação continua acima do limite estabelecido
A preocupação com os preços permanece entre os principais desafios da política monetária. A prévia da inflação oficial, medida pelo IPCA-15, registrou alta de 0,32% em outubro, resultado favorecido pela redução nas contas de energia elétrica. No acumulado de 12 meses, porém, o indicador avançou de 4,5% para 4,62%, ultrapassando o teto da meta.
O objetivo definido pelo Conselho Monetário Nacional é manter a inflação em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Dessa forma, o intervalo considerado adequado vai de 1,5% a 4,5%.
Desde janeiro de 2025, o Banco Central utiliza o sistema de meta contínua, no qual o cumprimento do objetivo é acompanhado mensalmente com base na inflação acumulada em 12 meses. O modelo substituiu a avaliação restrita ao resultado fechado de dezembro de cada ano.
As projeções também indicam dificuldade para trazer os preços de volta ao intervalo estabelecido. No último Relatório de Política Monetária, divulgado no fim de setembro, o BC estimou inflação de 5,2% em 2026. A previsão deverá ser reavaliada na próxima edição do documento. Já o boletim Focus aponta expectativa de 5,22% para o encerramento do ano, acima do limite de 4,5%.
Juros elevados pressionam crédito e atividade econômica
A trajetória da Selic também reflete o esforço do Banco Central para equilibrar o controle da inflação e o desempenho da economia. Quando os juros permanecem elevados, empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros, o que reduz o consumo e os investimentos. Em contrapartida, a medida ajuda a conter a demanda e a pressão sobre os preços.
No período entre junho de 2025 e março de 2026, a taxa básica permaneceu em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas. A partir de abril, o Copom iniciou uma sequência de cinco reduções, em um contexto de desaceleração inflacionária. A decisão mais recente, entretanto, interrompeu esse movimento.
O cenário de crescimento também passou a exigir atenção. O Banco Central revisou para 1,8% sua estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. A projeção do mercado financeiro é um pouco menor: 1,76%, segundo a edição mais recente do boletim Focus. Quatro semanas antes, os analistas esperavam crescimento de 1,85%.
Copom está com duas diretorias vagas
A decisão foi tomada em um momento de composição incompleta da diretoria do Banco Central. Os mandatos de Renato Gomes, responsável pela área de Organização do Sistema Financeiro, e de Diego Guillen, que comandava a Política Econômica, terminaram no fim de 2025.
Até o momento mencionado no comunicado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não havia encaminhado ao Congresso Nacional as indicações para preencher as duas vagas.
A ausência dos diretores ocorre em meio a um cenário de maior pressão sobre a política monetária, que precisa considerar simultaneamente as expectativas de inflação, o comportamento do câmbio, os riscos externos e a desaceleração da economia brasileira.
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