quarta-feira, 4 de novembro de 2026
COMÉRCIO EXTERIOR

Acordo Mercosul-UE pode ampliar exportações de Goiás em US$ 208 milhões por ano, aponta Fieg

Estudo apresentado na Expoind 2026 estima potencial de geração de 23 mil empregos e identifica oportunidades e desafios para a indústria goiana com a abertura comercial

Thais Munizpor em
mercosul
Imagem gerada por Inteligência Artificial

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia poderá acrescentar US$ 208 milhões por ano às exportações de Goiás e gerar cerca de 23 mil empregos. As projeções são de um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), que analisa os possíveis impactos da redução gradual das tarifas entre os dois blocos sobre a economia goiana. O levantamento também identifica setores com potencial de crescimento e aponta desafios para as empresas diante da ampliação da concorrência internacional.

As projeções foram apresentadas na quinta-feira (29/10), durante a 3ª Expoind – Feira de Negócios e Soluções para a Indústria Goiana, em Goiânia. Elaborado pela Gerência de Desenvolvimento Industrial (Gedin) da Fieg, o estudo analisa os efeitos da abertura comercial sobre a economia do Estado, identifica setores com maior potencial de crescimento e aponta as exigências que as empresas precisarão atender para ampliar a participação no mercado europeu.

O Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia, em vigor desde 1º de maio de 2026, deu início à redução das barreiras comerciais. A retirada das tarifas ocorrerá em etapas, com prazos diferentes para determinados produtos e setores, permitindo que as empresas se adaptem às novas condições de concorrência.

Para o analista de desenvolvimento industrial da Fieg e responsável pelo estudo, Saulo Nogueira, o saldo tende a ser favorável à economia goiana, especialmente pela possibilidade de ampliar as vendas para consumidores europeus. “O acordo como um todo, será mais positivo para Goiás do que negativo, porque abre um mercado enorme, com milhões de consumidores com um poder aquisitivo elevado. São novas fronteiras para as nossas exportações”, destacou.

Agroindústria entre os setores com maior potencial

Para dimensionar os possíveis impactos, o estudo analisou 40 produtos de 12 subsetores industriais, que representam 99% das exportações consideradas no levantamento. Entre os segmentos com perspectivas de expansão estão carnes bovina e de frango, açúcar, etanol, couro, alimentos e produtos químicos.

Um dos exemplos é o de aves inteiras congeladas, categoria para a qual a Fieg estima potencial de US$ 8,85 milhões anuais em exportações adicionais após quatro anos de redução tarifária. Atualmente, Goiás não exporta esse produto para a União Europeia, embora exista demanda em países como Espanha, França e Alemanha.

O crescimento das vendas externas também poderá beneficiar outras atividades da cadeia produtiva. Com o aumento da procura por produtos goianos, poderá haver maior demanda por fornecedores, matérias-primas, serviços e mão de obra. Esse movimento ajuda a explicar o potencial de geração de empregos apontado pelo estudo.

“Quando temos mais gente comprando nosso produto, temos uma demanda e uma necessidade que aumentam a produção. Com isso, há um incremento na contratação de pessoas”, explicou Saulo.

As estimativas consideram a retirada integral das barreiras comerciais de forma escalonada, conforme previsto no tratado. Os resultados, portanto, não são imediatos e dependerão da capacidade das empresas de ampliar a produção, atender às exigências do mercado europeu e aproveitar as oportunidades abertas pela redução das tarifas.

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Importações mais baratas e novos desafios

Se, por um lado, o acordo amplia as possibilidades de exportação, por outro, também facilita a entrada de produtos europeus no mercado brasileiro. Segundo o estudo da Fieg, as importações goianas poderão crescer cerca de US$ 190 milhões por ano após a implementação integral das reduções tarifárias, principalmente nos segmentos farmacêutico, de máquinas e equipamentos industriais e de equipamentos de transporte.

Para as indústrias, a abertura poderá representar acesso a máquinas, tecnologias e insumos importados a custos menores, favorecendo a modernização dos processos produtivos. Já os consumidores poderão encontrar preços mais competitivos em determinados produtos europeus.

A gerente de internacionalização da Fieg, Juliana Tormin, avalia que a mudança poderá contribuir para elevar a produtividade e a capacidade de competição das empresas goianas. “Um ponto muito positivo é que a nossa indústria vai conseguir importar mais maquinário e mais insumos para deixar o seu produto também competitivo, além de agregar mais inovação e tecnologia à produção goiana”, afirmou.

A abertura comercial, no entanto, também traz desafios. Enquanto muitas indústrias europeias já mantêm uma atuação consolidada no comércio exterior, parte das empresas goianas ainda concentra suas vendas no mercado interno. Para Juliana, aproveitar as novas oportunidades exigirá investimentos em inovação, adaptação de produtos e atendimento às normas técnicas e sanitárias exigidas pelos países europeus.

Entre os setores com possibilidades de expansão, a gerente destaca a agroindústria, o vestuário, os cosméticos e os produtos de couro. A redução das tarifas poderá estimular empresas que ainda não exportam a buscar clientes internacionais e incentivar aquelas que já atuam no exterior a diversificar mercados.

Fieg prepara programa de internacionalização

A Fieg prevê lançar, em novembro, um programa de internacionalização voltado à preparação das indústrias goianas para as mudanças nas condições de comércio com a União Europeia. A iniciativa deverá reunir capacitações, consultorias, estudos de mercado, missões comerciais e rodadas de negócios.

O programa terá como ponto de partida um diagnóstico para identificar o estágio de internacionalização de cada empresa, desde aquelas que ainda não exportam até as que já comercializam produtos em outros países.

“Dentro desse perfil, conseguimos trabalhar uma trilha de internacionalização, pegando na mão da empresa, desde o início até a concretização da primeira exportação”, explicou Juliana.

A proposta é orientar as indústrias sobre as exigências dos mercados de destino, a adequação de produtos e os procedimentos necessários para iniciar ou ampliar as exportações.

Estudo detalha oportunidades e riscos do acordo

Intitulado O Acordo Mercosul-União Europeia: impactos na indústria goiana, o levantamento da Fieg está dividido em quatro partes. A primeira examina os impactos econômicos e comerciais do tratado; a segunda apresenta estimativas de crescimento das exportações por produto; a terceira analisa regras comerciais e questões regulatórias; e a quarta aborda sustentabilidade, propriedade intelectual, investimentos e cooperação internacional.

O documento também chama atenção para exigências sanitárias, ambientais e técnicas que podem dificultar o acesso de produtos goianos ao mercado europeu. Entre os pontos analisados estão as regras de origem, os mecanismos de defesa comercial, as compras governamentais e as normas relacionadas à sustentabilidade.

Outro aspecto destacado é a diferença no ritmo de redução das tarifas. Enquanto a União Europeia iniciou a retirada de barreiras para milhares de produtos em maio, o Brasil terá um período maior de adaptação, com parte significativa das reduções previstas para os próximos anos.

A Fieg pretende acompanhar a implementação do acordo e identificar dificuldades enfrentadas pelas empresas, especialmente em relação a tarifas, cotas, exigências regulatórias e possíveis novas barreiras comerciais.

A primeira etapa do estudo foi divulgada em maio, quando o acordo provisório entrou em vigor. A apresentação completa ocorreu durante a terceira edição da Expoind, realizada de 27 a 29 de outubro, no Centro de Convenções de Goiânia. A feira reuniu mais de 80 expositores e teve programação voltada à inovação, tecnologia, negócios e comércio exterior.

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