Mercado eleva projeções de inflação e dólar no pós-eleição
Boletim Focus aponta terceira queda consecutiva na estimativa do PIB e Selic pressionada
O Boletim Focus, divulgado nesta terça-feira (3), trouxe um diagnóstico do mercado financeiro em relação aos rumos da economia brasileira. As projeções apontam para um cenário de elevação da inflação, dólar mais forte e a manutenção de uma taxa básica de juros (Selic) elevada, fatores que resultaram na terceira redução consecutiva da estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
No primeiro boletim divulgado após o resultado das eleições presidenciais, a estimativa do mercado financeiro para a inflação oficial do País em 2026 subiu de 5,19% para 5,22%. Esse movimento ocorre após o IPCA-15 de outubro registrar alta, puxada principalmente pelos alimentos básicos, com destaque para a escalada nos preços do tomate (24,54%) e da cebola (13,63%). A projeção para a taxa básica de juros (Selic) ao final de 2026 passou de 13,25% para 13,5%. Como a taxa atual está em 13,75%, o mercado ainda projeta um pequeno corte de 0,25 ponto percentual até o fim do ano.
Para a economista Greice Guerra, o cenário indica que o Banco Central deve adotar cautela em suas próximas reuniões, dividindo as opiniões do mercado. “O mercado está dividido, parte acha que o Copom vai manter a Selic e parte acha que pode aumentar, devido à alta da inflação que tivemos, ao rombo das contas públicas, que não para de crescer, e também ao resultado das eleições”, avalia.
A economista explica que a manutenção dos juros em patamares altos atua como um freio na atividade econômica. Essa retração já é sentida nas projeções, com a estimativa do mercado para o crescimento do PIB em 2026 recuando para 1,76%, em comparação a 1,8% projetado na semana anterior.
Além das taxas de juros, a cotação do dólar para o final do ano saltou de R$ 5,05 para R$ 5,34 na recente projeção do Focus. “A gente precisa entender que o cenário econômico sofre os impactos do cenário político”, ressalta a economista.
Greice Guerra observa que a alta repentina do dólar resulta de uma realocação de investimentos pós-eleições. Segundo a especialista, diante de um resultado que o mercado considerou menos comprometido com o equilíbrio fiscal, houve uma fuga de capital da bolsa. Dessa maneira, os investidores retiraram dinheiro da B3 e realocaram no dólar.
“Quando o dólar aumenta, tudo aumenta, porque grande parte das matérias-primas para a indústria e dos insumos para o agro são cotados em dólar. Isso aumenta os custos de produção, que no final a indústria ou o produtor rural tem que repassar para os seus produtos finais”, detalha Guerra.
Enquanto o mercado financeiro projeta um cenário de restrição e cobra medidas de contenção de gastos, o governo federal busca acalmar os ânimos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta terça-feira (3), segundo informações da Folha de S. Paulo, que a equipe econômica elabora um ajuste fiscal gradual. Segundo Durigan, o objetivo é encontrar um modelo que “melhore o estado das contas públicas”, mas que também “respeite os compromissos de campanha”.
Para tentar conter o endividamento do País, que já atinge 82,9% do PIB, o Ministério da Fazenda articula uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). O texto em estudo tem o objetivo de permitir ao governo federal congelar uma parcela maior dos recursos do Orçamento, garantindo assim os meios para atingir a meta fiscal.
No entanto, há propostas divergentes. O economista André Lara Resende, propôs desindexar a taxa básica de juros da rolagem da dívida pública, argumentando que o problema do Brasil não são os gastos primários, mas sim os altos custos impostos pela Selic.
Para a economista Greice Guerra, tentar forçar a queda dos juros seria um erro. “A gente também vê hoje no mercado o presidente Lula querendo conversar com a Lara Resende para ver se pode abaixar a taxa de juros numa canetada. A gente sabe que isso não funciona, porque vai de contramão com os fundamentos da economia”, adverte.
O ministro Dario Durigan buscou afastar essa possibilidade, negando que o presidente tenha uma agenda marcada com Lara Resende e classificando a ideia do economista como incipiente e com “várias deficiências”. Durigan também assegurou que as próximas indicações do governo para a diretoria do Banco Central respeitarão o “rigor técnico”.
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