Terça-feira, 07 de fevereiro de 2023

Editora relança obra completa de Manoel de Barros

Alfaguara reedita, em dois volumes, poemas do escritor que escrevia em “idioleto manoelês archaico”

Postado em: 17-03-2016 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Alfaguara reedita, em dois volumes, poemas do escritor que escrevia em “idioleto manoelês archaico”

Manoel de Barros gostava de dizer que escrevia em “idioleto manoelês archai­co”. No ano em que o poeta ma­to-grossense completaria seu centenário, esse idioma particular reaparece nas novas edições de sua obra completa, que começam a chegar às livrarias pela Alfaguara. Morto em 2014, o autor que cantou as coisas da natureza fixou o Pantanal no mapa da poesia brasileira. Mais que isso, construiu uma poética em torno das miudezas do mundo, de tudo aquilo que é descartado e marginalizado pela sociedade. Costumava se definir como “um fazedor de inutensílios”.

Os dois volumes que abrem a reedição flagram momentos distintos da construção do “manoelês” ao longo de sete décadas de carreira. Poemas Concebidos Sem Pe­ca­do/Face Imóvel reúne seus dois primeiros títulos, lançados em 1937 e 1942, respectivamente. Arranjos Para Assobio, de 1982, marca a consolidação do estilo que o consagraria a partir daquela década. Todos os livros incluem itens do baú de Manoel, muitos deles inéditos, como fotografias antigas, correspondências e manuscritos de poemas, selecionados pela filha do escritor, Martha Barros.

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Em meio a esse material estão cartas de Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade recebidas pelo poeta mato-grossense nos anos 1940. Publicadas em livro pela primeira vez, elas mostram que o iniciante buscou diálogo com os nomes consagrados da época, enviando-lhes exemplares de Face Imóvel. Mário responde com um elogio cortês à “real intensidade” da poesia de Manoel. Em reação mais elaborada, Drummond se impressiona com o “humanismo e pungente lirismo” dos versos, nos quais enxerga um autor com “o sentimento da relação secreta entre as coisas”.

“Meu pai era um funcionário da poesia, se dedicava em tempo integral a ela. Deixou uma obra linda, rica e profunda. Ele se acha­va um homem comum, e era. Sua alma inquieta, amorosa, simples e ao mesmo tempo complexa fez dele um pensador das coisas pequenas e sem importância, algo tão necessário neste mundo poluído e cheio de desperdícios”, diz Martha.

O pensador das coisas pequenas já se anunciava em Poemas Concebidos Sem Pecado, que publicou aos 21 anos. Em versos narrativos, repletos de personagens como Cabeludinho e Nhanhá, evoca memórias da infância no Pantanal. Face Imóvel é mais marcado pela vivência no Rio, para onde ha­via se mudado em meados dos anos 1930. A nova edição traz o manuscrito do poema Enseada de Botafogo, que registra seu espanto diante do contraste urbano entre “carros ver­melhos que levam os donos da vida” e “emi­grados subjugados ao infinito”.

Publicado quatro décadas depois, quando Manoel já havia retornado ao Pantanal para administrar uma fazenda da família, Arranjos Para Assobio mostra o poeta em pleno domínio da forma. O livro traz lemas clássicos do “manoelês”, como “só me preocupo com as coisas inúteis”. Nesses versos, ele já é o poeta que escreve como quem olha para o so­lo, em busca de novas palavras para refletir sobre o universo de pedras, plantas, bichos e homens. “O chão é um ensino”, escreve. 

Mais que um elogio da simplicidade 

aSupervisor das novas edições, o poeta e crítico Italo Moriconi diz que a obra de Manoel está longe de ser apenas “um elogio da simplicidade”: “Manoel tem uma poética muito sofisticada, que reconstrói a simplicidade e a intuição pela linguagem. E o elogio do pequeno, do chão, tem também uma dimensão política e ética. Ele costumava dizer: “Só bato continência para árvore, pedra e cisco”, diz Moriconi, para quem esses traços deram ao poe­ta um lugar singular no cânone da poesia brasileira. “Embora seja muito popular, ele está fora dos esquemas tradicionais de consagração pela crítica ou pelo mercado. Esteve sempre fora do eixo, na fronteira.

Desse lugar fronteiriço, a obra do autor de O Livro das Ignorãças continua a influenciar novas gerações de escritores que valorizam a invenção. Criador do portunhol selvagem, mescla de português, espanhol e guarani, o poeta Douglas Diegues, que nasceu no Rio e viveu entre Assunção e Campo Grande (MS), conheceu Manoel em 1989. Ficou “espantado e muy feliz” ao descobrir um poeta mais velho que escrevia versos como “tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima serve para a poesia”. 

Foi o início de uma amizade e uma correspondência de 15 anos. Juntos, escreveram o roteiro de um documentário sobre Manoel, O Poeta é Um Ente Que Lambe as Palavras e Depois se Alucina (2004). Quando Diegues mandou seus primeiros versos em portunhol selvagem para o amigo, ele respondeu com uma carta em que se dizia feliz “porque eu havia finalmente encontrado a minha linguagem”, lembra o escritor. 

“Ele foi um amigo, um abuelo selvagem e às vezes um parceiro. Ele sabia de las coisas, era um filólogo erudito como disse Antonio Houaiss, mas non degenerou em adulto nem transformou num intelectual arrogante. Influenciou o lado selvagem do meu portunhol e do meu português também. Conbersar com ele eram oficinas literárias que ajudavam ampliar os meus pobres horizontes”, diz Diegues, por e-mail, com a dicção característica do portunhol selvagem.

A obra de Manoel também cruza as fronteiras da língua portuguesa. Depois da morte do brasileiro, o moçambicano Mia Couto escreveu um poema reconhecendo a influência dele em seu trabalho: “Contra essa distância/tu me deste uma sabedora desgeografia/e engravidando palavra africana/tornei-me tão vizinho/que ganhei intimidades/com a barriga do teu chão brasileiro”.

O angolano Ondjaki também dedicou a Manoel um poema de seu livro Há Prendisajens com o Xão (2002). Foi apresentado à obra do mato-grossense por outra autora angolana, Ana Paula Tavares. Os versos do brasileiro “tocaram não a minha escrita ou a minha leitura, mas a mi­nha vida” e a de muitos outros que “sofrem de inclinação manoelística”, diz.

“Ninguém ainda se transformou em ave, mas depois de Manoel todos ficámos um pouco mais propícios para passarinho”, diz, por e-mail, Ondjaki, que considera um momento decisivo de sua obra “a descoberta do manoelês”. “Eu creio que ninguém fica indiferente aos efeitos secundários do manoelês. Deviam talvez dar-lhe estatuto de língua poética”. 

‘Poemas Concebidos Sem Pecado/Face Imóvel’

Manoel de Barros

Poesia

Editora: Alfaguara, 128 páginas

Preço: R$ 34,90 

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