segunda-feira, 25 de maio de 2026
Alerta

Pesquisa da UEG detecta bactérias resistentes a antibióticos em rios de Anápolis

Microrganismos apresentam resistência a medicamentos usados no tratamento de infecções urinárias, respiratórias e casos graves como meningite

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 25 de maio de 2026
Bactérias
Estudo encontra superbactérias no Rio Extrema e preocupa pesquisadores em Anápolis - ASDHASD

A presença de superbactérias em rios de Anápolis voltou a acender o alerta de pesquisadores sobre os impactos da contaminação ambiental na saúde pública. Um estudo desenvolvido pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) identificou bactérias multirresistentes no Rio Extrema e em trechos do Rio Meia Ponte, na Região Central do Estado. 

Os microrganismos encontrados apresentam resistência a pelo menos três antibióticos amplamente utilizados na medicina, o que pode dificultar tratamentos de infecções humanas e animais.

A pesquisa começou em 2022, quando equipes da universidade realizaram coletas em diferentes pontos do Rio Extrema. Em 2026, os pesquisadores retornaram ao local para uma nova etapa do estudo, ampliando as áreas analisadas e incluindo regiões próximas ao Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia). 

Além da água, a nova fase também prevê análises em animais silvestres e em outros reservatórios ambientais para identificar possíveis focos de disseminação dessas bactérias resistentes.

Entre os microrganismos isolados pelos pesquisadores está o Staphylococcus aureus, bactéria conhecida por causar infecções na pele, pulmões, corrente sanguínea e até quadros mais graves, como pneumonia e sepse. Segundo os cientistas, essas bactérias apresentaram resistência a medicamentos importantes usados na rotina clínica.

Um dos antibióticos aos quais os microrganismos demonstraram resistência foi o sulfametoxazol, medicamento utilizado no tratamento de infecções urinárias, respiratórias e de pele. Também foi identificada resistência ao cloranfenicol, antibiótico indicado em casos graves, como meningite e algumas infecções cerebrais. Outro medicamento afetado é o metronidazol, frequentemente utilizado em tratamentos odontológicos, infecções intestinais e procedimentos abdominais.

De acordo com a professora e pesquisadora da UEG, Elisa Flávia Bailão, a descoberta representa um desafio crescente para a saúde humana, animal e ambiental. Ela explica que, quando uma bactéria se torna resistente aos antibióticos usados com frequência nos hospitais e clínicas, o tratamento das infecções passa a ser muito mais difícil, exigindo medicamentos mais fortes, mais caros e nem sempre eficazes.

Leia mais: Goiânia recebe título de Capital Nacional da Art Déco com desafio da preservação

Descarte irregular de medicamentos

Os pesquisadores afirmam que a resistência bacteriana encontrada nos rios pode estar ligada ao descarte irregular de medicamentos em pias, vasos sanitários e redes de esgoto, além do uso excessivo de antibióticos na pecuária e na agricultura. Esses resíduos acabam chegando aos cursos d’água e criam um ambiente favorável para a seleção de bactérias cada vez mais resistentes.

Para identificar os microrganismos, a equipe da UEG realiza um rigoroso processo laboratorial. As amostras de água são coletadas em frascos esterilizados e levadas ao laboratório, onde passam por filtração a vácuo utilizando membranas de nitrato de celulose. 

Nessas membranas ficam retidos os microrganismos presentes na água. Em seguida, os pesquisadores utilizam meios seletivos de cultura e realizam testes de antibiograma, método que permite verificar quais antibióticos ainda conseguem combater as bactérias encontradas.

Além da análise microbiológica, os pesquisadores também utilizam uma sonda multiparâmetro para avaliar as condições ambientais da água, como oxigênio dissolvido, temperatura, condutividade elétrica e potencial hidrogeniônico (pH). O objetivo é compreender a saúde do rio e identificar fatores que possam favorecer a proliferação das superbactérias.

Nesta nova fase da pesquisa, os cientistas pretendem ampliar o número de antibióticos analisados e investigar se houve aumento da resistência bacteriana desde as primeiras coletas realizadas em 2022. A intenção é descobrir se esses microrganismos continuam presentes no Rio Extrema e se o perfil das bactérias sofreu alterações nos últimos anos.

Não abastecem a população

Apesar da preocupação, a Saneago informou que o Córrego Extrema e o Ribeirão das Antas não são utilizados para abastecimento público. A companhia ressaltou ainda que a água distribuída à população passa por tratamento e atende aos padrões de potabilidade exigidos pelo Ministério da Saúde. A pesquisadora Elisa Flávia Bailão também destacou que não foram realizados testes na água que chega às torneiras, o que afasta, neste momento, risco direto ao consumo doméstico.

Mesmo assim, especialistas alertam que o avanço de bactérias resistentes no meio ambiente é considerado um problema global de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde já classifica a resistência antimicrobiana como uma das maiores ameaças da atualidade, justamente porque reduz a eficácia dos tratamentos e aumenta o risco de infecções difíceis de controlar.

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Tags:
Veja também