segunda-feira, 29 de junho de 2026
NEGOCIOS

Alta dos medicamentos para emagrecer cria novos negócios e altera consumo

Pesquisa aponta avanço de 239% no uso de GLP-1, enquanto Anvisa intensifica a fiscalização do mercado informal e do comércio irregular

Otavio Augustopor Otavio Augusto em 28 de junho de 2026
Alta dos medicamentos para emagrecer cria novos negócios e altera consumo
Foto: Divulgação

O avanço dos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas para emagrecimento”, deixou de impactar apenas a indústria farmacêutica e passou a produzir reflexos em diversos setores da economia brasileira. Supermercados, restaurantes, academias, clínicas médicas, farmácias, laboratórios e até empresas de delivery já começam a sentir os efeitos da rápida expansão desse mercado, que desponta como um dos mais promissores – e também um dos mais desafiadores – dos últimos anos.

Levantamento da Scanntech aponta que o consumo desses medicamentos cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. A pesquisa estima que aproximadamente 6% da população adulta brasileira já utiliza algum medicamento da classe GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.

O dado chama atenção não apenas pelo ritmo de crescimento, mas pelo tamanho do mercado paralelo. Segundo a Scanntech, mais da metade das doses consumidas no país pode estar sendo comercializada fora dos canais formais, principalmente por meio de farmácias de manipulação, importações irregulares e vendas pela internet.

medicamento
Foto: Divulgação

Esse cenário colocou o setor no radar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que intensificou as ações de fiscalização em parceria com a Polícia Federal para combater a produção clandestina, o contrabando e a comercialização de medicamentos sem registro.

Mercado informal movimenta milhões e leva governo a endurecer fiscalização

O crescimento acelerado da demanda encontrou um mercado ainda em processo de regulamentação. A alta procura, associada ao elevado preço dos medicamentos registrados, abriu espaço para uma cadeia paralela de comercialização.

Em abril deste ano, a Operação Heavy Pen, conduzida pela Polícia Federal com apoio da Anvisa, cumpriu mandados em 12 estados, incluindo Goiás, para investigar grupos envolvidos na importação irregular de insumos, manipulação clandestina e venda de medicamentos sem registro sanitário. Durante a operação, foram identificadas movimentações financeiras de R$ 4,8 milhões, além da apreensão de insumos suficientes para fabricar mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis.

A Anvisa também anunciou um amplo plano para reorganizar esse mercado. Entre as medidas estão o fortalecimento da farmacovigilância, novas inspeções em farmácias de manipulação, monitoramento ativo dos pacientes e revisão das normas para produção e importação de medicamentos da classe GLP-1. Apenas entre janeiro e abril de 2026, a agência interditou oito estabelecimentos, apreendeu mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos irregulares e publicou diversas resoluções proibindo importação, comercialização e uso de produtos sem registro.

Mudança no consumo já afeta supermercados e alimentação

Os impactos econômicos começam a aparecer muito além do setor farmacêutico. Segundo a Scanntech, após descontar fatores como inflação, renda, clima e emprego, a disseminação dos medicamentos GLP-1 deverá provocar uma redução anual de 0,49% no volume de alimentos vendidos pelos supermercados brasileiros.

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A retração é mais intensa justamente nos produtos associados ao consumo por impulso. O segmento de bebidas lidera as perdas, com queda estimada de 0,91%, seguido por perecíveis embalados (-0,66%), mercearia (-0,53%) e mercearia básica (-0,43%). Entre as categorias específicas, a cerveja apresenta a maior redução prevista, de 1,03%, seguida por petiscos e snacks (-0,82%), chocolates (-0,72%), biscoitos (-0,63%), refrigerantes (-0,55%), balas e pirulitos (-0,51%).

Consumidor muda estilo de vida e cria novas oportunidades de negócios

O levantamento revela que os usuários de GLP-1 apresentam um perfil bastante distinto do restante da população.

Antes de iniciar o tratamento, esses consumidores costumavam gastar entre quatro e cinco vezes mais com cervejas, bebidas destiladas, restaurantes, fast food e serviços de delivery.

A maior concentração de usuários está entre mulheres de 25 a 34 anos, com renda mensal entre R$ 22 mil e R$ 32 mil, evidenciando que o tratamento ainda permanece concentrado nas faixas de maior poder aquisitivo.

 

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