Geração sem oportunidade: desemprego entre jovens cresce no mundo
Mercado fecha as portas para jovens e primeiro emprego vira desafio global
Conseguir o primeiro emprego tornou-se um dos maiores desafios da economia mundial. Em diferentes países, o crescimento das vagas formais já não acompanha a entrada de novos trabalhadores no mercado, enquanto empresas elevam as exigências para contratação e a desaceleração econômica reduz o ritmo das admissões. O resultado é um aumento persistente do desemprego entre jovens, fenômeno que começa a produzir impactos não apenas sociais, mas também econômicos, afetando consumo, produtividade e o planejamento de longo prazo das empresas.
Relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), levantamentos da União Europeia e informações divulgadas por governos nacionais mostram que o desemprego juvenil segue muito acima da taxa geral de desocupação em praticamente todas as grandes economias. Especialistas apontam que, embora a inteligência artificial tenha acelerado mudanças no perfil das vagas, o principal problema continua sendo o baixo dinamismo econômico e a dificuldade de geração de novos empregos.
Crescimento econômico perde força e dificulta o primeiro emprego
O desemprego entre jovens sempre foi superior ao da população em geral por causa da falta de experiência profissional. Nos últimos anos, porém, essa diferença aumentou em vários países.
Na China, por exemplo, a taxa oficial de desemprego entre pessoas de 16 a 24 anos chegou a 15,6% em maio de 2026, mesmo após registrar o menor índice dos últimos 11 meses. O percentual continua muito acima da taxa geral de desemprego do país, próxima de 5%. O cenário reflete uma combinação entre desaceleração econômica e aumento acelerado do número de universitários formados, que supera a capacidade de criação de vagas.

Na União Europeia, o desemprego juvenil também permanece elevado. Em maio, atingiu 15,2%, enquanto a taxa geral ficou em 5,9%. Embora distante dos níveis observados após a crise financeira de 2008, especialistas afirmam que o ingresso dos jovens no mercado voltou a enfrentar obstáculos em diversos países.
No Brasil, o cenário segue semelhante. Dados do Ministério do Trabalho mostram que o desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos alcança 13,8%, mais que o dobro da média nacional, de 5,8%. Entre jovens de 14 a 24 anos, quase 20% não estudam nem trabalham, grupo conhecido internacionalmente como “nem-nem”.
Empresas aumentam exigências e reduzem vagas de entrada
Além do crescimento econômico mais lento, outra mudança vem alterando o mercado de trabalho: o aumento das exigências feitas pelos empregadores. Empresas passaram a buscar profissionais que já chegam prontos para desempenhar suas funções, reduzindo investimentos em treinamento e diminuindo a oferta de vagas voltadas ao primeiro emprego.

Segundo Sara Elder, especialista em emprego juvenil da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a principal dificuldade atualmente não está na qualificação dos jovens, mas na incapacidade das economias de criar postos de trabalho suficientes. Ela afirma que o número de novos trabalhadores cresce em ritmo superior ao da geração de empregos, tornando a concorrência muito maior mesmo entre candidatos qualificados.
Inteligência artificial preocupa, mas ainda não explica o cenário
O avanço da inteligência artificial passou a alimentar dúvidas sobre o futuro das profissões de entrada, especialmente em funções administrativas, atendimento e atividades repetitivas. Estudos conduzidos pelo professor Golo Henseke, da University College London, mostram que regiões com adoção mais acelerada da IA registraram crescimento mais lento do emprego entre trabalhadores de 15 a 24 anos.
Apesar disso, especialistas afirmam que ainda não há evidências de que a tecnologia seja o principal motivo do desemprego juvenil.
Segundo Henseke, o impacto da IA ainda é inferior aos efeitos provocados pelo próprio ciclo econômico. A desaceleração das economias, a redução de investimentos e a cautela das empresas continuam sendo fatores mais relevantes na queda das contratações.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial aumenta a demanda por profissionais com competências digitais, análise de dados, programação e capacidade de trabalhar em ambientes tecnológicos.
Levantamentos da OIT mostram que os setores de manufatura, construção civil e serviços registraram as maiores reduções nas oportunidades destinadas aos jovens entre 2023 e 2025. Por outro lado, áreas intensivas em conhecimento continuam apresentando crescimento. Saúde, engenharia, ciência, tecnologia da informação e comunicação permanecem entre os segmentos com maior demanda por profissionais qualificados.
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