quinta-feira, 24 de setembro de 2026
AGRONEGÓCIO

Recuperação judicial de empresas do agro cresce 66% em um ano no Brasil

Goiás registrou 73 pedidos de recuperação judicial no agro no primeiro trimestre e tem R$ 19,8 bilhões em crédito rural atrasado ou renegociado

Anna Salgadopor em
Recuperação judicial
Número de empresas em recuperação judicial avançou em diferentes setores da economia no primeiro semestre de 2026 Foto: Divulgação/Seapa

O número de empresas do agronegócio em recuperação judicial cresceu 66% em 12 meses no Brasil. Até junho de 2026, eram 1.263 empresas do setor em processo de reestruturação, segundo o Monitor RGF-BizDoc. O avanço ocorre mesmo com a estimativa de uma safra recorde de 360,8 milhões de toneladas em 2025/26.

Em Goiás, foram registrados 73 pedidos de recuperação judicial no agronegócio no primeiro trimestre de 2026, segundo maior número do país. Mato Grosso liderou o ranking, com 135 solicitações. No Brasil, foram 474 pedidos no período, alta de 21,9% em relação ao primeiro trimestre de 2025.

Os números refletem, principalmente, dificuldades financeiras e de liquidez enfrentadas por produtores e empresas do setor. O aumento dos pedidos ocorre em um cenário de juros elevados, crédito mais caro, queda nos preços de algumas commodities e aumento dos custos de produção.

Brasil bate recorde de empresas em recuperação

O país encerrou o primeiro semestre de 2026 com 7.980 CNPJs em recuperação judicial, número recorde, de acordo com o levantamento. O resultado representa alta de 8% em relação a dezembro de 2025 e de 21,2% na comparação com junho do ano passado.

Na base que exclui microempresas, filiais e empresas inativas, foram contabilizadas 6.341 companhias em recuperação. O número representa crescimento de 6,2% no semestre e de 21,2% em 12 meses. Em maio, essa base havia alcançado o pico de 6.513 empresas.

O cenário ocorre em meio ao encarecimento do crédito. Em julho, o custo médio dos empréstimos para empresas chegou a 25,4% ao ano, enquanto a inadimplência alcançou 4,2%. Com a Selic em 14%, a renegociação de dívidas permanece como um dos principais desafios para as empresas.

Goiás tem R$ 19,8 bilhões em crédito rural atrasado ou renegociado

Goiás possui aproximadamente R$ 81 bilhões em operações de crédito rural. Desse total, R$ 7,52 bilhões estão em atraso e outros R$ 12,25 bilhões correspondem a operações renegociadas ou prorrogadas.

Somadas, as duas categorias representam R$ 19,8 bilhões, o equivalente a cerca de 24% de todo o estoque de crédito rural do estado.

Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, a situação está relacionada à mudança nas condições de crédito e ao comportamento dos preços das commodities.

Segundo ele, os grãos atingiram preços elevados em 2021 e 2022, período em que muitos produtores aumentaram o acesso ao crédito para comprar terras, fazer arrendamentos e adquirir máquinas.

Depois, houve aumento dos juros, vencimento de dívidas, problemas climáticos e elevação dos preços dos fertilizantes em meio a conflitos internacionais. A combinação reduziu a capacidade de pagamento de produtores e empresas.

Ongaratto também relaciona as dificuldades enfrentadas pelo setor em Goiás ao cenário fiscal nacional, citando fatores como juros elevados, inflação, aumento dos custos dos fertilizantes e queda no preço da soja.

Comércio lidera recuperações judiciais

Apesar do forte crescimento no agronegócio, o comércio concentra o maior número de empresas em recuperação judicial no país. No primeiro semestre de 2026, foram 1.649 CNPJs em reestruturação no setor.

A indústria de transformação aparece na sequência, com 1.455 empresas. Entre os fatores associados à pressão financeira estão os juros elevados e a concorrência com marketplaces.

Empresas conhecidas, como Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok e o grupo controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, também recorreram à Justiça para tentar reorganizar suas dívidas.

A Braskem, que possui passivo de US$ 10,9 bilhões, optou pela recuperação extrajudicial, modalidade considerada mais rápida em comparação com o processo judicial.

Micro e pequenas empresas também enfrentam dificuldades

As micro e pequenas empresas apresentaram algumas das maiores altas no número de recuperações judiciais.

No primeiro semestre de 2026, as microempresas somaram 1.575 CNPJs em recuperação judicial, crescimento de 52% em relação ao mesmo período de 2025. Entre as pequenas empresas, foram 1.246 processos, alta de 30% em um ano.

O cenário mostra que a dificuldade de acesso a crédito e o aumento do custo das dívidas atingem empresas de diferentes tamanhos e setores.

No agronegócio, entretanto, o avanço dos pedidos ocorre em contraste com a capacidade produtiva. Mesmo com a previsão de uma safra recorde, produtores e empresas enfrentam dificuldades para transformar a produção em fluxo de caixa suficiente para cumprir compromissos financeiros.

Em Goiás, o volume de crédito rural em atraso ou renegociado reforça a pressão financeira sobre o setor e coloca a recuperação judicial como uma das alternativas utilizadas para reorganizar dívidas e evitar a falência.

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