Trabalhadores do audiovisual migram para a internet

Postado em: 19-04-2021 às 15h30
Festival de cinema durante a pandemia alcançou cerca de 1 milhão de pessoas | Foto: reprodução

João Gabriel Palhares

Do mundo “comum” ao mundo pandêmico, diversos trabalhadores e trabalhadoras do setor audiovisual tiveram que reinventar as formas de exposição das suas artes. A pandemia, causada pelo vírus da Covid-19, paralisou diversas produções audiovisuais e consequentemente o funcionamento de festivais e salas de cinema. No Brasil, a instauração da situação apesar de trazer algumas fragilidades ao setor, que já era atacado por uma crise institucionalizada – fruto da falta de políticas públicas, mostrou, também, a reinvenção da arte através dos esforços de diversos trabalhadores do setor. 

De acordo com a Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ANESP), considerando que no Brasil,  5,2 milhões de pessoas e mais de 300 mil empresas atuam no setor cultural, a paralisação das atividades culturais como cinema, shows, teatro e visitas a museus, causa, um prejuízo de R$ 11,1 bilhões em três meses, considerando-se apenas a retração do consumo cultural feito em áreas ao ar livre ou espaços culturais. 

Como uma forma de subverter os impactos, os profissionais têm investido sua criatividade nas veias híbridas da internet. Explorando o potencial de conexão alcançado pelo “sistema online”, boa parte deles considera a nova forma de exposição das produções como um, talvez, futuro prático para os festivais de cinema. Segundo a professora de artes visuais, Bárbara Félix, o deslocamento para uma participação efetiva das pessoas em eventos ou em relação a entretenimento e arte é algo que está desaparecendo.

Com a instauração do mundo pandêmico e a aproximação cada vez maior do contato por telas, vídeos chamadas, e aulas online, a profissional conta que há uma grande contribuição para o fomento do setor audiovisual. Em meio a caminhada dos processos audiovisuais, as outras alternativas de visualização têm se tornado grandes aliados, “O deslocamento para uma participação efetiva das pessoas em eventos ou em relação a entretenimento e arte, é algo que está desaparecendo há algum tempo”, conta Bárbara. “O cinema por exemplo já tem perdido boa parte de seu público. Eu mesma assisto a todos os filmes que desejo ver nos serviços de Streaming”, complementa.

Apesar de se entregar à nova alternativa, a professora não descarta o interesse pela magia das relações de troca no cinema. Mas, entendendo sobre as circunstâncias, ela considera os serviços de streaming como uma alternativa, não só para os usuários, como também para os produtores, principalmente, nas questões de alcance. Como exemplo disto, Bárbara cita o Festival Internacional da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás (DIGO) que, no ano passado, bateu mais de 1 milhão de interações nas redes sociais.

De acordo com o diretor e produtor do DIGO, Cristiano Sousa, a adaptação do festival para a modalidade online além de trazer um alcance seis vezes maior nas redes sociais, também, aumentou a visibilidade e a agregação de mais pessoas às discussões. “Nós conseguimos falar com as pessoas de uma forma mais tranquila e a conexão com os realizadores fluiu com mais interação e tempo para discussão.”, complementa. A edição do festival, que foi realizada em 2020, além de contar com a exposição online, teve continuidade, em decorrência da modalidade escolhida, em diversas lives, até a anunciação da edição deste ano.

De acordo com Cristiano, com a adaptação para o formato online, foi preciso, com os idealizadores do evento, pensar novas estratégias para atingir o público. Os projetos e atividades foram todos adaptados para o modelo online de forma que integrasse todos os participantes. Cristiano conta que chegou até a realizar um curso extracurricular para pensar estratégias digitais para o evento. 

Sobre a questão presencial, o produtor ressalta sobre as questões de networking e movimentação de capital na cidade, mas considera que a presença digital vai continuar. De acordo com ele, a adaptação para a nova forma de exposição despertou a capacidade de mostrar os conteúdos goianos para as pessoas de fora.  De acordo com ele, o futuro dos festivais ou mostras específicas tem certa proximidade com o modelo híbrido. Ainda, considerando o DIGO como um festival que tem grande interesse por pessoas de fora de Goiás, a adaptação pode se tornar uma rotina para o festival. “Precisamos atender a esse público que não pode vir até aqui”, conta.

Demonstrando mais uma reinvenção no cenário, na edição deste ano, em parceria com a Prefeitura, além de contar com as exposições, o evento terá um grupo de debates sobre a politização LGBTQIA+. A perspectiva é boa e interessante, conta Cristiano. O projeto demonstra ser mais uma grande contribuição para a aprendizagem dos frequentadores sobre a temática, que atravessa os participantes para além de exposições cinematográficas.

Por: João Gabriel Palhares
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