Nem bilhões em emendas evitaram derrota de Lula
Mesmo com liberação de R$ 12,3 bilhões, governo não consegue aprovar indicação ao STF e expõe desgate na relação com o Congresso
Bruno Goulart
Mesmo com a liberação de bilhões de reais em emendas parlamentares, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não conseguiu evitar uma derrota histórica no Senado Federal. A rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou evidente que, no atual cenário político, o dinheiro não tem sido suficiente para garantir apoio no Congresso.
Nos dias que antecederam a votação, o Palácio do Planalto intensificou a liberação de recursos para parlamentares. Entre 9 e 29 de abril, foram liberados R$ 10,9 bilhões em emendas, o equivalente a 82% de tudo o que o governo autorizou no ano até agora. Só para os senadores, foco principal da articulação, foram cerca de R$ 2,4 bilhões empenhados, ou seja, reservados para pagamento.
Além disso, apenas entre 10 de abril, um dia após a marcação da sabatina, e a data da votação, o valor chegou a R$ 2,3 bilhões em emendas individuais e de comissões. O movimento foi visto como uma tentativa clara de fortalecer a base e garantir votos favoráveis à indicação de Messias. No entanto, o resultado foi outro.
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A indicação foi rejeitada por 42 votos contra e 34 a favor, sete a menos do que o necessário para aprovação. Trata-se de um fato raro: desde a criação do STF, em 1890, apenas outras cinco indicações haviam sido barradas pelo Senado, todas ainda no século XIX. Ou seja, a derrota tem peso histórico e político significativo.
Influência de Alcolumbre
Nos bastidores, a avaliação é de que a articulação do governo falhou. Mesmo com o esforço financeiro, prevaleceu a influência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Senadores relataram que Alcolumbre atuou diretamente ao longo do dia da votação, ao conversar com colegas e pedir votos contrários à indicação.
Pouco antes do resultado, Alcolumbre chegou a prever que Messias perderia por cerca de oito votos, estimativa muito próxima do placar final. Em nota, a Presidência do Senado afirmou que o senador apenas deu uma opinião quando questionado por outros parlamentares. No caso, o petista Jaques Wagner (BA).
Outro ponto que chamou atenção foi o fato de que alguns dos principais beneficiados pela liberação de emendas estavam ligados ao grupo político de Alcolumbre. O senador Weverton Rocha (PDT-MA), aliado do presidente da Casa e relator da indicação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), está entre os que mais receberam recursos no período. Como o voto é secreto, não é possível saber como cada senador votou.
Relação desgastada
Para o especialista em Marketing Político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, o momento é delicado, principalmente por ser um ano eleitoral. “Avalio como delicada essa relação. Ano eleitoral os ânimos costumam se exaltar um pouco mais por conta dos interesses e expectativas de poder e vitória que se prospectam no futuro”, afirma.
Fulquim reforça que o modelo político brasileiro exige diálogo constante. “Em governo de coalizão como é o nosso, não se governa sozinho e não dá para fazer valer sua vontade sempre”, explica.
O especialista em Marketing Político destaca que a estratégia do governo não pode se basear apenas em recursos financeiros. “Ainda que você destine bilhões em emendas, você não consegue só pela força do dinheiro”, pontua.
Por fim, Fulquim aponta falhas na articulação política. “Cada pauta que se ganha e se perde está associada a um trabalho de articulação, convencimento e negociações, o que o governo tem demonstrado não estar fazendo bem com as derrotas recentes”, conclui. (Especial para O HOJE)