Goiás quebrou. Arrecadação não dá nem para folha e previdência
Informações do próprio governo apontam para tempos terríveis com a máquina inteira arrebentada, dívidas crescendo, lista de servidores inchando, irresponsabilidade na criação de programas sociais e o difícil retorno a pagar dívidas federais depois de sete anos
Já que os políticos e seus partidos não conseguem encontrar nada de ruim no governo para criticar, apenas as fofoquinhas sem autor, o maior front de oposição é o Transparência Goiás, um site mantido pelos cofres públicos diferente dos milhares de blogs, podcasts e perfis digitais que bajulam o governador de plantão qualquer que seja ele. O que se vê ali é um amontoado de números que, em resumo, mostram um Estado falido.
O atual chefe do Executivo, Daniel Vilela (MDB), não faz nada não por simplesmente não saber fazer, e realmente não sabe, mas porque os dinheiros tirados da população via impostos e fundos mal dão para bancar a farra da folha de pagamento inchada, dos 30 programas sociais e da previdência. Em 2025, o déficit foi superior a R$ 4 bilhões, isso sem pagar as dívidas federais. A arrecadação, que sobe menos que as despesas, é insuficiente para folha e previdência, ou paga uma ou a outra. Em resumo, o Estado ficou moído, quebrado estava oito anos atrás.
Daniel sabe disso e seus adversários, também. Seus aliados, mais ainda. E para qualquer um saber basta digitar transparencia.go.gov.br. Os dados não estão ali traduzidos nem são informadas as nuances de cada planilha. Mesmo assim, o que se vê é o horror após seguidas gestões irresponsáveis pilotadas por demagogos desde os anos 1980. Goiás aguentou muito, mas quase meio século de escavações tinha de chegar ao fundo do poço. Quando chegou, foram feitos rombos como anexos.
O que se vê é o horror após seguidas gestões irresponsáveis
A inflação em 2025 foi de 4,26%. E os gastos com servidores subiram quase o triplo, 11,73%. Em maio, sem contar a previdência, a folha consumiu R$ 1 bilhão e 761 milhões de reais, 70% a mais do que há sete anos. A previdência, que em 2019 tirava 11,39% do orçamento, está esfaqueando as finanças estaduais em 20,63% da arrecadação.
Em vez de construir as obras estruturantes, preparando Goiás para crescer, o governo criou 30 programas sociais para reeleger Daniel e agora ele mesmo está suando azeite de mamona para quitá-los. Se deixar de pagar os projetos demagógicos, a popularidade vai para o fundo do Rio Meia-Ponte. Por falar no mais importante curso d’água da Capital, ele está fadado a voltar a ser um imenso canal de esgoto. Em 2025, a Saneago investiu 0,01% em saneamento. Em 2026, até agora, menos de R$ 5 milhões.
A Região Metropolitana voltou 30 anos no tempo em termos de ligações clandestinas. A conta de água inclui o esgoto tratado e ambos estão aquém do que o pagador merece, pois a água não para de faltar, não é confiável, e o esgoto só é tratado de Vossa Excelência pelas doenças.
Ânsia por reeleição impediu os populistas de fazer o certo
Os prefeitos pilantras, que comem na mão de qualquer governo, refizeram os contratos com a Saneago. Deram prejuízo a seus munícipes para ajudar na preparação que o governo levou anos para articular rumo a vender a Saneago. Aí, de novo, a ânsia por reeleição impediu os populistas de fazer o certo: atrair investimentos privados, mesmo que tivessem de leiloar o sucatão chamado Saneago. Suas estações de tratamento de água e de esgoto estão anacrônicas. Precisam triplicar em quantidade e centuplicar em tecnologia. A Saneago não tem verba nem probidade suficiente para ser gerida como a saúde pública necessita.
Outra calamidade pública é a Equatorial, que herdou o terror elétrico da Enel e nada fez para minorar o massacre. Continuou péssima a transmissão, a geração continua a mesma. Até os velhos e problemáticos fios em postes estão do mesmo jeito, longe do sonhado aterramento. O festival de falta de energia foi salvo pelo grande número de usinas fotovoltaicas, mas os empresários da multinacional desfrutam de seu prestígio junto ao governo para impedir que placas solares sejam ligadas ao sistema.
Até as vitórias que os consumidores tinham na Justiça diminuíram depois do ajeitamento feito na empresa com as autoridades do Executivo, por motivos que podem ser da desesperança em acionar por saber que vai ser derrotado até a desconfiança de que, dê o que der, aconteça o que acontecer, tudo vai continuar como está para ver como é que fica.
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Toda a máquina estatal está arrebentada
Como O HOJE já informou, foi feita uma leva de reformas nas escolas. Porém, as mais de mil unidades de ensino estão de novo carentes de obras. Não um batom, uma simples pintura, mas uma cirurgia plástica completa, inclusive com implante de órgãos. A arquitetura de mau gosto é a mesma, o número de salas não acompanhou o crescimento populacional e as decantadas subidas no Ideb foram propagadas como se o Brasil fosse alguma referência em Educação.
O mesmo vale para a segurança pública. A pior parte, em termos de retrocesso, está na Superintendência de Polícia Técnica. Precisa de R$ 1 bilhão em investimentos. E isso não é chute. Deve aparecer em programas de governo porque seus servidores independentes listam o pessoal e os equipamentos necessários para se investigar desaparecimentos, estupros, fraudes contábeis, homicídios – aliás, há 12 mil crimes dolosos contra a vida não resolvidos em Goiás, desde os anos 1980.
Não disse de onde tiraria esse montante
No mês anterior, Daniel Vilela reuniu representantes das forças policiais para anunciar-lhes R$ 1 bilhão e 200 milhões em “pacote de valorização”. Não disse de onde tiraria esse montante, que parece muito e é muito, mas muito pouco. E ele não dispõe desse volume, daí ter feito a propaganda no último ano de mandato para o próximo governador, que pode não ser ele, atender aos policiais e bombeiros. Para retribuir o que as polícias fizeram pelos ocupantes do governo nos últimos anos, seria necessário investir em salários e tecnologia o tanto que vem sendo torrado com as organizações sociais da Saúde, coisa aí de R$ 10 bilhões imediatamente.
Depois de sete anos sem pagar dívidas com o governo federal, aos 17 minutos do 2º tempo da prorrogação, o dezembro do ano anterior ao fim do mandato, Goiás entrou no tal Propag, um programa de faz de conta: o Estado deve mais de R$ 20 bilhões e as parcelas são de R$ 12 milhões. Não cobrem nem os juros. Mesmo se fosse um crediário das Casas Bahia, na compra de algo sem juros nem correção e com parcelas fixas, Goiás terminaria de pagar em 2163. Isso se até lá não pegasse emprestado ou renegociasse 1 centavo sequer.
Ainda assim, o governo federal fez um acordo de pai para filho caçula, que é para ver se recebe alguma coisa, pois os 84 meses sem ver a cor dos reais goianos foram bancados pela União, com beneplácito do Supremo Tribunal Federal. Em síntese, Goiás está aos cacos, o atual governador está lascado e seu sucessor vai envelhecer uma década por mês, fazer exatamente obra nenhuma, ser cassado, renunciar ou entregar para a malta. Hora de ligar o salve-se quem puder. E não adianta pular no Meia-Ponte, porque não morre na queda, mas de poluição. (Especial para O HOJE)