quinta-feira, 8 de outubro de 2026
mão de obra

Agro enfrenta falta de trabalhadores e antecipa mecanização para manter operações

Escassez de mão de obra é apontada como principal desafio por 44,5% dos produtores; em Goiás, setor reúne 1,1 milhão de trabalhadores

Anna Salgadopor em
rural agro maquina
Legenda: Dificuldade de contratação atinge 94,8% das propriedades rurais e já provoca atrasos, aumento de custos, adiamento de investimentos e redução da produção | Foto: Divulgação/New Holland

A escassez de mão de obra qualificada se tornou o principal desafio operacional do agronegócio brasileiro, segundo pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Cepea/Esalq/USP. O levantamento mostra que 44,5% dos produtores consideram a disponibilidade de trabalhadores o maior problema atual, à frente de fatores como clima, preços e custos de produção.

A dificuldade de contratação é relatada por 94,8% das propriedades rurais brasileiras, enquanto 84,3% afirmam operar com um quadro de funcionários inferior ao considerado ideal. A falta de trabalhadores também tem reflexos sobre a produção: 88,3% dos empregadores relatam impactos decorrentes da escassez. Entre os principais efeitos estão atrasos nas operações (48,7%), adiamento ou desistência de planos de expansão (48%), aumento dos custos salariais (43,9%) e redução direta da produção (42%).

Como resposta à dificuldade de contratação, 42,6% dos produtores anteciparam planos de mecanização ou automação. Segundo Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, o movimento ocorre como consequência da falta de mão de obra. “A mecanização é consequência da falta de mão de obra, não a causa”, afirmou. Nos últimos 30 anos, a produtividade do trabalho na agropecuária brasileira aumentou 515%, enquanto o crescimento no conjunto da economia foi de 28%.

A redução da oferta de trabalhadores no meio rural está relacionada a diferentes fatores, entre os quais a urbanização contínua, que reduziu a população residente em áreas tradicionais de recrutamento, e o aumento do nível de escolaridade. Entre 2012 e 2025, o contingente de trabalhadores rurais com ensino médio completo cresceu 114%, enquanto o grupo com ensino superior aumentou 155%. Profissionais com maior nível de escolaridade tendem a buscar postos técnicos ou migrar para o setor de serviços urbanos.

Para atrair e manter trabalhadores, o setor também registrou aumento da remuneração. Entre 2021 e 2025, os salários do agro cresceram 35%, ante 24,8% nos demais setores. Na região Centro-Oeste, os salários formais do agronegócio aumentaram 68% entre 2007 e 2025, enquanto a alta na economia urbana foi de 16%. Fazendas também oferecem benefícios indiretos, como moradia, luz, água e internet sem custos, como forma de atrair trabalhadores.

A pesquisa também avaliou a relação entre programas sociais e a disponibilidade de mão de obra. Entre os produtores entrevistados, 83% afirmaram sentir efeitos de programas como o Bolsa Família na oferta de trabalhadores, enquanto 63,2% relataram recusa de ofertas formais por receio de que o candidato perdesse o benefício social. Pesquisadores do Insper apontam que a saída abrupta do benefício estimula a migração para a informalidade e recomendam uma regra de transição gradual.

Em Goiás, um dos principais polos agrícolas do País, o mercado de trabalho do agronegócio reúne 1,11 milhão de pessoas, segundo o Boletim do Mercado de Trabalho do Agronegócio de Goiás, elaborado pelo Instituto Mauro Borges (IMB) com dados do quarto trimestre de 2025. O número exato é de 1.108.215 trabalhadores, equivalente a 28,6% do total de ocupados no Estado.

Na comparação com o quarto trimestre de 2019, o agronegócio goiano incorporou 126,6 mil trabalhadores, aumento de 12,9% na força de trabalho. A distribuição dos ocupados ocorre entre diferentes segmentos.

O setor de serviços concentra a maior parcela, com 40,6% das vagas, ou 450.142 postos. O segmento primário reúne 23,6% das ocupações, com 261.097 trabalhadores. Dentro desse grupo, a criação de bovinos concentra a maior parcela, com 104,8 mil empregados, seguida pela cana-de-açúcar, com 35,9 mil, e pela soja, com 33,6 mil trabalhadores.

Queda na soja

A soja registrou queda de 43% em relação ao ano anterior, em razão de intempéries climáticas que afetaram a produtividade média em 2025. A agroindústria representa 21,1% das vagas, com 233.866 trabalhadores, enquanto o autoconsumo corresponde a 14,7%, com 151.450 pessoas.

O segmento de insumos é o menor, com 1,1% da força de trabalho, ou 11.660 pessoas, mas registrou expansão de 71,9%. O crescimento foi impulsionado pela fabricação de máquinas agrícolas, que apresentou alta de 212,9%.

O número de trabalhadores formais no agronegócio goiano passou de 579,5 mil para 619,4 mil entre 2024 e 2025, aumento de 6,9%. No mesmo período, a informalidade caiu 1,2% e atingiu 488,8 mil pessoas, equivalente a 44,1% do total. Os maiores percentuais de formalização foram registrados nos segmentos de insumos, com 92,5%, e agroindústria, com 73,9%.

Na escolaridade, 25,2% das pessoas ocupadas no agronegócio de Goiás possuem ensino superior. O número representa crescimento de 20,2 mil graduados, alta de 7,8% em relação a 2024. Trabalhadores com ensino médio formam a maior parcela, com 43,1% do setor.

A participação feminina também aumentou. As mulheres representam 36,4% das vagas, com 403,1 mil trabalhadoras, acréscimo de 14,2 mil postos, ou 3,7%, na comparação com 2024. Os homens correspondem a 63,6% dos ocupados, com 705,1 mil trabalhadores.

 

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