terça-feira, 18 de agosto de 2026
Tecnologia no agronegócio

IA no campo pode dificultar recuperação judicial para pequenos produtores em Goiás, avalia especialista

Projeto-piloto do CNJ e do Mapa promete mais segurança jurídica e combate a fraudes na recuperação judicial, mas exigência de laudos técnicos e documentação robusta pode ampliar barreiras de acesso ao instrumento

Letícia Leitepor Letícia Leite em
IA no campo pode dificultar recuperação judicial para pequenos produtores em Goiás, avalia especialista
Especialista aponta ganhos em transparência e segurança jurídica, mas alerta para possíveis dificuldades enfrentadas por pequenos e médios produtores. Foto: Wenderson Araujo/CNA

A  inclusão de Goiás em um projeto-piloto nacional que utilizará inteligência artificial (IA) e monitoramento geoespacial em processos de recuperação judicial de produtores rurais promete transformar a forma como o Poder Judiciário analisa pedidos de empresas do agronegócio em dificuldades financeiras. 

A iniciativa, desenvolvida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), busca acelerar decisões, reduzir fraudes e ampliar a segurança jurídica no campo. No entanto, especialistas alertam que a medida também pode criar novos obstáculos para parte dos produtores rurais.

O projeto utilizará a infraestrutura VMG (Verificação Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos), plataforma que reúne imagens de satélite, inteligência artificial e análises históricas da atividade produtiva. A ferramenta permitirá que magistrados tenham acesso a informações sobre áreas cultivadas, histórico de safras, impactos climáticos, produtividade e garantias vinculadas aos processos, reduzindo a dependência de perícias presenciais e de informações apresentadas exclusivamente pelas partes envolvidas.

Para o advogado especialista em recuperação judicial Eliseu Silveira, a novidade representa um avanço importante para a credibilidade do instituto, mas exigirá um novo nível de organização por parte dos produtores rurais que pretendem recorrer ao mecanismo.

Segundo ele, a tecnologia não necessariamente elevará os custos dos processos de forma automática, mas deverá exigir documentação mais completa e maior rigor técnico na elaboração dos pedidos. “Na prática, vai dificultar o acesso para produtores desorganizados, principalmente aqueles que não são ligados com a parte contábil e fiscal. E por ter que contratar profissionais para resolver documentos que deveriam ser obrigatórios, poderá sim aumentar o custo, mas não é uma regra o aumento de custo”, afirma.

A preocupação se concentra especialmente nos pequenos e médios produtores rurais. De acordo com Silveira, muitos agricultores ainda operam com níveis reduzidos de formalização administrativa, o que pode dificultar a comprovação das informações exigidas pelo novo sistema.

“Claramente o maior risco é impedir que médios e pequenos produtores que estão hoje desorganizados e talvez na beirada da informalidade possam acessar um instrumento que é benéfico para eles. Se for pensar em política de estado para proteger o pequeno e o médio agricultor, essa medida pode atrapalhar sim”, avalia.

Por outro lado, o especialista destaca que a nova tecnologia também tende a restringir o uso indevido da recuperação judicial por produtores que tentam obter vantagens sem efetiva necessidade econômica.

Equilíbrio entre fiscalização e acesso

A principal discussão levantada pelo projeto envolve justamente o equilíbrio entre o combate a fraudes e a preservação do acesso à recuperação judicial. O instrumento foi criado para permitir que atividades economicamente viáveis superem momentos de crise financeira sem encerrar suas operações.

Na avaliação de Silveira, o endurecimento dos critérios é positivo para identificar produtores que utilizam a ferramenta de forma indevida, mas seria importante criar mecanismos que permitissem aos pequenos agricultores regularizar pendências documentais antes da análise definitiva dos pedidos.

“Deve-se enrijecer as regras para o produtor desonesto, mas deveria se permitir ou pelo menos flexibilizar um prazo para reorganização de documentos e laudos que são mais complexos e especializados. Isso faria com que o médio e pequeno produtor conseguisse acessar melhor a recuperação judicial”, afirma

O advogado observa ainda que, atualmente, muitos pequenos produtores já enfrentam dificuldades para ingressar com pedidos de recuperação judicial devido aos custos envolvidos no processo. Segundo ele, a tendência é que a ferramenta continue concentrada principalmente entre médios e grandes produtores rurais.

Segurança jurídica na recuperação judicial para o agro goiano

Apesar das preocupações sobre acessibilidade, Silveira acredita que os impactos gerais da medida serão positivos para Goiás. O Estado está entre os maiores polos agropecuários do País e figura entre os líderes nacionais em recuperações judiciais envolvendo produtores rurais.

“Acredito que essa nova regulamentação, vai ajudar a fortalecer a segurança jurídica do agronegócio goiano. Não vai atrapalhar pedidos existentes, para Goiás, vai ajudar no ambiente dos negócios que envolve o agronegócio”, conclui.

Além de Goiás, participam do projeto-piloto São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Minas Gerais. Juntos, os estados concentram aproximadamente metade das recuperações judiciais de produtores rurais em andamento no pPaís. A expectativa do CNJ é ampliar a iniciativa para outras regiões após a fase de testes e capacitação dos magistrados.

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