Little Women: do romance adorado ao filme que o supera com mudanças no cotidiano da mulher de época

Postado em: 31-10-2021 às 09h00
Por: Victoria Lacerda
O filme está disponível na plataforma de streaming HBO Max. | Foto: Reprodução/Internet - Jornalismo Júnior

Menos conhecido no Brasil do que outros clássicos escritos na mesma época, “Mulherzinhas” é um livro e filme inesquecíveis. Comumente chamado de romance de formação, por retratar, inicialmente, um ano na vida das jovens irmãs March ao longo de seu crescimento emocional e moral e, em sua segunda parte, o desenvolvimento da vida adulta delas, o livro poderia facilmente ser enquadrado, nos termos contemporâneos, como um Young Adult. As irmãs March são adolescentes que enfrentam a longa espera pelo retorno do pai, que está lutando na guerra, e se deparam com a pobreza e os tormentos de não se poder ter tudo em uma sociedade que valorizava especialmente o ter em detrimento ao ser. Com uma educação moralmente protestante, elas são ensinadas pela mãe para serem boas e não lamentar o que não possuem, mas agradecer pelo que têm.

Apesar da moral cristã, que permeia toda a história, existem diversos elementos que nos indicam a natureza rebelde e feminista da autora. Louisa May Alcott foi uma sufragista declarada, tendo sido, inclusive, a primeira mulher a votar em sua cidade. Ela nunca casou, sustentou a família com a sua escrita e declarava, para quem quisesse ouvir, suas opiniões políticas em defesa das mulheres e contra a escravatura. Louisa era, em suma, Jo March, uma das personagens principais de “Mulherzinhas”.

Inspirado na própria vida em família de Louisa, “Mulherzinhas” nos conta a história das irmãs March: Meg, a mais velha, Jo, a aspirante a escritora, Beth, a pianista e Amy, a pintora. Cada uma possui traços muito particulares e refletem uma das irmãs da própria autora, sendo ela representada na segunda irmã, Jo. Mas esse não foi um livro espontâneo. Louisa gostava de escrever ensaios políticos, abordando o sufragismo e o abolicionismo, e ganhava a vida escrevendo ficção sensacionalista sob um pseudônimo. Foi seu editor que lhe pediu para escrever um livro para jovens meninas e ela, achando que aquilo não daria certo, o fez. Ainda bem que ela decidiu fazê-lo, do contrário, poderíamos não conhecê-la.

No entanto, mulheres sempre escreveram, mas raramente foram publicadas e pouco sabemos das tantas escritoras que esse mundo teve já que grande parte dos registros foram destruídos por serem partes de diários ou coisas secretas. Alcott poderia ter seguido por esse mesmo caminho e, hoje, ser desconhecido para nós. Porém, ela nasceu numa casa frequentada por pessoas da literatura e foi estimulada a escrever e colocar suas opiniões no mundo. A vida não foi sempre boa para ela, mas suas personagens tiveram tudo. Embora o livro seja baseado em sua própria vida, em “Mulherzinhas” encontramos menos tragédias e mais amor do que podemos encontrar ao olhar para a vida de Louisa.

Não é difícil perceber por que ela escreveu o livro da forma como o fez. Apesar de inicialmente não ter ficado animada com a ideia de escrever para o público jovem, já que ela queria ser uma “escritora séria”, logo ela percebeu que criar uma história para tal público não a faria menos séria, já que ela estaria formando jovens meninas com seu enredo. Foi então que Louisa, pensando no que gostaria que sua vida tivesse sido, colocou ali seu alter-ego em Jo e criou cada uma das irmãs March de acordo com as suas próprias irmãs, dando-lhes contextos ricos em aprendizados e crescimento.

Publicado originalmente em 1868, “Mulherzinhas” é um livro delicado. Dividido em duas partes, sendo a primeira a mais conhecida aqui no Brasil, trata da vida das irmãs durante o final da Guerra Civil Americana. A primeira parte nos mostra um ano na vida das irmãs March, que aguardam o pai voltar da guerra enquanto passam por muitas necessidades financeiras. Quando eram crianças, a vida era economicamente melhor e elas desfrutavam de muitos luxos disponíveis na época, mas o pai, em um excesso de generosidade, emprestou um alto valor a um amigo e, dessa forma, caiu em pobreza.

No início do livro, vemos as meninas conversando sobre como estão tristes por serem pobres, já que o Natal está chegando e elas não podem nem ao menos comprar roupas novas. É aí que a mãe delas decide inserir em suas vidas o livro “O Peregrino”, uma história ficcional com valores cristãos que fazia sucesso na época. O clássico conta a história da viagem do Cristão à cidade Celestial, onde ele passa por muitos obstáculos até chegar ao seu destino. É estranho, como leitora da atualidade, olhar para isso e pensar que uma autora como Louisa, que era tão moderna para sua época, escolheu colocar uma fábula cristã como intertexto na primeira parte do seu livro, servindo de modelo moral e comportamento para as irmãs. Porém, não podemos esquecer que, por mais que sejamos “à frente” de nosso tempo, ainda somos produto dele e algumas noções permanecerão enraizadas conosco. De qualquer forma, a inspiração para o comportamento humilde e resiliente do Cristão resulta em momentos interessantes na história e não atrapalha a leitura. Ele é mais um livro de conforto para as irmãs do que uma bússola moral de fato.

Embora seja um romance de sua época, “Mulherzinhas” está longe de ser apenas um livro moralista para jovens. A importância da escrita de Louisa May Alcott é tanta que diversas escritoras consagradas, como Simone de Beauvoir, Patti Smith e Elena Ferrante, descobriram nela o caminho para a literatura. Isso porque Louisa não somente contou uma história semi-autobiográfica sobre quatro irmãs crescendo e descobrindo o mundo, mas também deu importância à narrativa da vida cotidiana de mulheres.

Por fim, existem poucos livros em que podemos encontrar a vida cotidiana de uma mulher elevada ao patamar de arte. Enquanto há diversos protagonistas masculinos cujas vidas medíocres são estudadas ao longo dos séculos, a literatura de Louisa May Alcott permaneceu como sendo apenas para jovens mulheres, como se isso fosse algo menor. As vidas de mulheres interessam a todos porque somos pessoas deste mundo e nossas narrativas são tão válidas quanto as dos homens. Escrever sobre mulheres normais, vivendo suas vidas e descobrindo seus caminhos é eternizar a figura da mulher comum como importante. O filme está disponível na plataforma de streaming HBO Max, quanto ao elenco, Gerwig reuniu nomes de talento incontestável, como Meryl Streep e Laura Dern. Entre os mais jovens, estão dois dos melhores atores dessa geração: Saoirse Ronan e Timothée Chalamet. Little women recebeu seis indicações ao Oscar, entre elas a de Melhor Filme, vale a pena conferir.

De fato, não existe nada de tão extraordinário em “Mulherzinhas”, mas é justamente isso o que faz dele um livro e filme tão maravilhoso.

Compartilhe: